Este post vem um pouco atrasado em relação à “guerra” que se vem assistindo em relação à liberdade da Internet. Ultimamente, tem-se assistido a uma luta entre os lobbies das editoras, distribuidoras e toda a indústria associada, e a Internet (sim, praticamente toda a Internet) onde figuram nomes como Google, Facebook e Wikipedia. São várias as propostas de lei que tentam ser passadas, quer nos Estados Unidos da América (SOPA/PIPA), como no resto do mundo (ACTA), havendo até espaço para algumas sugestões também em Portugal (Projecto de Lei 118).
Stop Online Piracy Act (SOPA)/ Protect IP Act (PIPA)
A SOPA (proposta do Congresso) ou a PIPA (na sua versão do Senado) é uma proposta de lei norte-americana que visa combater a pirataria online e que permite, através de denúncias às autoridades, bloquear o acesso ao domínio de um determinado site. Este bloqueio pode ser efectuado sem a necessidade de uma acção judicial, o que indicia prováveis abusos e coloca a Internet sobre uma ameaça de censura. 1 2
Esta proposta é vista como uma ameaça por todas as entidades presentes na Internet que gerou uma onda de protesto, por parte de entidades como o Reddit, o Google ou a Mozilla, no dia 18 de Janeiro onde a mais visível foi o encerramento por um dia da Wikipédia na sua versão inglesa.
Anti-Counterfeiting Trade Agreement (ACTA)
A questão da SOPA é tão relevante para o mundo como o é para os Estados Unidos, ela terá certamente uma reacção epidémica ao resto do mundo, pois este é extremamente influenciado por toda a dinâmica do maior mercado mundial. Tanto assim é que existe neste momento um acordo assinado entre os Estados Unidos, a União Europeia (22 dos seus membros actuais) e mais 7 outros países, entre eles a Austrália e o Canadá, que propõe medidas muito semelhantes às propostas pela SOPA norte-americana, tendo a agravante de que esta prevê sanções criminais sobre os acusados. 3
Tendo esta proposta recebido muito menos atenção por parte dos media, e tendo sido já assinada por uma grande parte dos países que a negociavam (onde a Polónia era até há pouco tempo um dos resistentes), é previsível que seja também aprovada no parlamento europeu.
Projecto de Lei 118
Em Portugal, e porque os partidos estão sempre muito preocupados com a cultura (ou talvez não), propõe-se criar uma taxa extraordinária na aquisição de suportes de armazenamento digital, sejam eles discos rígidos, cartões de memória ou até telemóveis. 4 Esta proposta prevê um custo acrescido por GigaByte em todos os suportes acima de uma capacidade prevista na lei, e embora isto já seja ridículo é ainda mais o facto de não estarem previstos limites superiores sendo que da maneira que os suportes aumentam em capacidade para o mesmo nível de custo, estaremos daqui a pouco tempo a pagar mais de taxa do que pelo equipamento.
Irrita-me imenso que tenhamos uma quantidade enorme de acéfalos a comandar este país, e neste caso particular são mesmo todos (à direita e à esquerda), pois existe unanimidade no hemiciclo. O discurso gasto de dizerem que defendem a cultura e os artistas mais não é do que ir a reboque de uma Sociedade Portuguesa de Autores que defende tudo, menos aqueles que devia, precisamente os autores.
Se a questão da cópia privada ser considerada um crime já me deixa muitas dúvidas (pode ser lida uma opinião bem interessante sobre este assunto aqui), então o facto das pessoas eleitas por todos os portugueses e que deviam estar lá a defender o interesse de todos os portugueses, e não apenas os da SPA e amigos, considerarem todas as pessoas que compram discos, impressoras ou telemóveis, e por conseguinte todos os portugueses, (pois todos podem comprar qualquer um destes artigos) criminosos parece-me um princípio extremamente errado para um estado de direito. Afinal a presunção de inocência apenas existe para alguns.
Se a proposta visa compensar os artistas visados, gostava também de ver explicado como serão calculados e distribuídos estes valores pelos artistas nacionais e que impacto é que a pirataria tem para o Abel Neves ou para o Adolfo Morais de Macedo , digníssimos signatários do abaixo assinado levado a cabo pela SPA 5. Sendo que muitos destes têm cargos na direcção da SPA, e outros não autorizaram a utilização do seu nome nesta petição, parece-me que há alguma coisa a explicar, quando nem os autores concordam com a mesma (os de bom senso pelo menos) 6 7 8. Se do ponto de vista do artista até possa parecer bem receber mais qualquer coisa pelo seu trabalho, mesmo que não tenham direito a isso, parece-me errado que alguém exija ser pago quando não exista contrato algum que assim o determine.
O negócio e os artistas
A desculpa de todas estas sociedades de defesa dos direitos de autor mais não estão do que a defender um modelo de negócio gasto. A estas apenas interessa manter o negócio e o monopólio da distribuição de conteúdos, através de meios que estão ultrapassados. As editoras e distribuidoras estão a ver escapar-lhes das mãos uma mina de ouro que à tanto controlavam e dessa forma começa a armar-se com advogados de forma a deitar abaixo a sua maior inimiga, a Internet.
Nem a Internet veio prejudicar os artistas, nem a pirataria prejudica os artistas, mesmo partindo do principio que estes têm o direito a receber pelo seu trabalho 9.
A Internet e toda uma nova forma de distribuição, veio dar mais oportunidades de conhecer coisas novas e não apenas o que nos chegava através das campanhas publicitárias das grandes produtoras. A própria pirataria permite aos artistas fazerem-se conhecer e com isso ganhar posteriormente em espectáculos ou vendas de conteúdos, por pessoas que à partida não o conheceriam de outra forma. Tanto assim é que autores como o Paulo Coelho 10, Peter Gabriel 11, Neil Gaiman, OK Go, Jason Mraz, entre outros, se opõem a esta luta contra os novos meios de distribuição 12. O Paulo Coelho por exemplo, afirma mesmo que o facto das suas obras serem publicadas de forma gratuita em redes de partilha, permite um aumento de vendas 13, associando-se assim a uma nova campanha lançada pelo site de partilha thePirateBay.org .
São comportamentos como este que identificam aqueles que estão seguros daquilo que fazem e sabem como proceder para conquistar audiência.
A questão de achar que se os consumidores podem ter um produto de borla, não o vão querer comprar é extremamente errada, basta ver os casos da Netflix e/ou da Hulu, para perceber que as pessoas querem é um melhor e mais rápido acesso a conteúdos a preços que possam pagar. Sou actualmente cliente da plataforma Steam para jogos de computador porque acho que cumprem precisamente esse equilíbrio entre, acessibilidade e preço, e também seria caso a Netflix e a Hulu estivessem disponíveis para a Europa. Não é uma questão de borlas, mas sim de alternativas.
Eu não sou, de forma alguma, contra os artistas, gosto imenso de ir a espectáculos de música, cinema, teatro e afins. Não gosto é de ver uma quantidade enorme de parasitas à sua volta como se tivessem direito a dizer o que devemos ver e ouvir. E se nós consumidores temos acesso a mais e melhor conteúdo, isso tem que ser bom, ou não?
Notas:
- SOPA ↩
- PIPA ↩
- ACTA vs. SOPA: Five Reasons ACTA is Scarier Threat to Internet Freedom ↩
- Proposta de Lei 118 ↩
- Mais de uma centena de autores e artistas exigem nova lei da Cópia Privada ↩
- A lei da cópia privada, a árvore das patacas e a ética da SPA #PL118 ↩
- SPA tira abaixo assinado da gaveta um ano depois ↩
- http://yfrog.com/z/kfgdesxj ↩
- Why Most Artists Profit from Piracy ↩
- Paulo Coelho -My thoughts on S.O.P.A. ↩
- Peter Gabriel – About SOPA ↩
- An open letter to Washington from Artists and Creators ↩
- http://paulocoelhoblog.com/2012/01/28/promo-bay/ ↩



